Falando comigo mesma
é quase um diário, mas não anoto todo dia
Parte I: Atualmente, me sinto louca e sem rumo
meu dente
Eu mandei mensagem pra odontologia- depois de algum grande tempo, tempo esse mais de um mês depois, mas mandei- só que não responderam e então, estou á espera, na minha insistente confiança nos outros, na minha louca alucinação de que já fiz minha parte, ou que agora não depende mais de mim, o fim do mundo e o inicio dele, parado, nessa espera. Estou aqui, nessa minha trava, em algo que me deixa reclusa e dependente- de qualquer coisa- pra dar o próximo passo. Por mais que eu floreie as frases e as explicações, por mais que em algum lugar tenha motivos e justificativas complexas, onde eu posso voltar no meu eu de 4 anos- mesmo que eu não lembre de nada quando tinha essa idade- e dizer que é tudo muito bem conectado, no fim da historia, na moral de tudo, a culpa é completamente minha. Porque existem mil clinicas, mil números, porque nesse tempo todo que meu siso está nascendo, dava tempo de eu ter ido em mil consultas com mil dentistas diferentes, mas aqui estou, esperando, sei lá, eu devo ser muito idiota.
Falando desse jeito parece que eu sou completamente disfuncional e nada proativa- e talvez sim, em certas coisas eu devo ser isso mesmo- mas é que dá pra viver como tá, nenhum dente caído, nenhum siso me arrancando o ar da graça, nenhuma carie, nenhuma dor de dente tão forte assim, então, eu posso viver assim.
p.s. isso não é exclusivamente sobre ir ao dentista ou sobre problemas dentários.
algo entre trabalhar e ter liberdade
Nenhuma conversa magicamente aconteceu, nenhuma eu disse ao meu pai tudo oque tem vontade, nenhuma empresa me contratou por telepatia. A minha ideia em ter um emprego, um salario fixo e próprio, ainda me segue- mas parece mais um peso nas costas do que algum impulso que me mova pra frente- sou perseguida por mim mesma nessa vontade, nessa busca por poder ajudar nas despesas, pagar meus remédios, consultas, ir a lugares e pagar com o que sai do meu bolso, sustentar pelo menos algum % de mim mesma. Eu sei que talvez pareça muito dramático- e acho que é mesmo, eu sou cheia de dramas internos- porque eu não asso necessidade, eu tenho meus privilégios, em ter uma família que consegue pagar uma psicóloga há cada 15 dias, meu anticoncepcional, ir a médicos quando necessário- inclusive um plano de saúde- meu transporte pra faculdade, meus lanches, pagam meus cremes e pomadas (tenho psoríase e dermatite), eu consigo sair e se precisar pagar algo eu posso. Mas sabe, eu me sinto presa e muito dependente, acho que isso é em vários níveis, não só do financeiro, mas das minhas próprias vontades, por justamente ter essa coisa que me segura, essa opinião do meu pai que vira ordem, essa precisão em ter que justificar tudo, em me dobrar pra caber aqui. É muito louco isso, porque seria mais confortável se eu tivesse meu próprio dinheiro, ninguém tá nadando em dinheiro aqui, então eu tenho tudo isso, mas á custos e contas apertadas, porque eu sei que não é tão lindo assim- a nossa realidade, o pais em que vivemos, deixa tudo bem complicado e inacessível de todas as formas possíveis, caso você não receba milhões.
A dinâmica do trabalho, mudaria toda minha rotina, o tempo que uso pra estudar, escrever, descansar, fazer tarefas de casa seria bem menor ou quase nada- então outro privilegio que tenho- o tempo para fazer as coisas- eu as vezes me pego pensando se quero mesmo ou se é uma convenção social, uma grande comparação da minha vida com as das pessoas a minha volta, se eu quero mesmo o que acho querer ou se mais uma vez em mais um âmbito a minha vida, eu me moldo e me encaixo em algo. Logicamente que eu quero dar mais folga financeira pros meus país, quero poder sair sem medir pela régua de outras pessoas o que estou gastando, quero ter minhas economias, guardar um dinheiro, aos poucos, crescer de alguma forma, poder juntar pra uma casa, pra uma vida que possa ser vivida, sabe?
Isso tudo em prós e contras- assim como todo o resto das coisas da vida- nada é tão simples assim, mas poderia ser, poderia ser diferente, mas infelizmente, de certa forma, sempre vamos ter que encaixar no sistema, seja pra seguir a risca, seja pra ir contra ele, seja pra defender ele, seja pra odiar ele, em todos os cenários o sistema acaba sendo maior que nossas vontades e desejos- sim, estou falando sobre o capitalismo, sobre as nossas politicas e políticos.
Acho também que essa liberdade nem é tão liberta assim- porque trabalhar, principalmente dessa forma que digo, em uma empresa, modo clt, pode até me dar o dinheiro, mas em outros vários aspectos, vai me prender e me sugar.
sexo é muita coisa; quando duas pessoas diferentes se relacionam; como fazer tudo funcionar- vai funcionar mesmo?
Minha ginecologista me deu o diagnostico, eu estava com vaginose- basicamente as bactérias da própria vagina se desequilibram- dai passei a tomar um antibiótico, por uma semana- em melhorou o meu corrimento 100%, também os incômodos nos toques e penetração, ou seja, ficou bem intenso porque sem o anticoncepcional eu sinto mais- sensibilidade e o incomodo estava dentro disso. Sobre o sexo em geral, a questão de que sexo é muito mais do que o momento em si, foi algo muito revelador, apesar de que quando você pensa sobre isso pela primeira vez já parece muito obvio, mas é algo que acabamos deixando na estante, seja pela rotina, pelas convenções, pelos modelos estabelecidos, pelo desconforto de pensar sobre- fato é que ter tido essa conversa com minha psicóloga e posteriormente com meu namorado foi muito bom, esclarecer sentimentos sobre o sexo que não seja literalmente sobre o ato, mas sobre o como e quando esse ato acontece.
Eu e ele sempre conversamos sobre o que gosta ou não, o que fazer, posições, partes do corpo de maior estimulo, etc.- isso é muito importante de ser conversado também, entender ambos os lados e encaixar de forma gostosa essa dança- é que mais do que isso, sexo não é o gozo, sexo é os caminhos de se chegar no prazer- e por prazer eu digo todos eles, todos os sentidos ,sensações, pontos específicos, as coisas novas e as coisas de sempre, os movimentos, a lentidão e a rapidez e principalmente sobre tudo o que antecede o corpo no corpo, as conversas durante o dia, os atos, um bom dia, uma janta a dois, uma briga, um grito, um incomodo, o quarto em que estamos... Descobrir esses processos, descobri o que te tenciona e o que te deixa leve, é o melhor caminho.
Acho um absurdo como isso tudo não é dito, como tudo parece ter que ser escondido, como a falta de liberdade de falar sobre sexo influencia completamente no próprio ato, como esse controle de corpos realmente funciona- afetando todos os lados, a mulher por não se permitir e no homem por ter a ideia de ‘tem que ser assim’- talvez isso seja papo pra um texto a parte.
Voltando ao relacionamento, as pautas sobre vulnerabilidades e diferenças tem sido presentes.
Meu estresse, minha falta de paciência, minha grosseria- ou seja qual for o nome- continua bem forte, acho que estou dando mais impacto pra isso do que deveria, porque minha psiquiatra disse que eu tenho relações boas e consigo gerenciar e principalmente ver o que esta acontecendo, que não estou sendo impedida de nada, que nesses casos é preciso ver frequência e temporalidade, ou seja, está tudo bem, porque todo momento que esse estresse surge é porque existe alguma situação estressante, algo diferente, alguma vulnerabilidade presente, então que bom que eu sinto algo né?
Mas as vezes sinto que algo está desregulado- talvez o antidepressivo controlasse- com certeza controlava, eu me vejo as vezes sem motivo de ter dado aquela resposta, ou sei lá, as vezes meu pai fala que tô respondendo como se fosse discutir, meu namorado falou que sim, eu tenho sido grossa, ele disse que é como se eu respondesse como se tudo fosse obvio, acho que é meio que ser direta de mais, e também tem o tom da minha voz, eu não falo baixo, as vezes isso com uma resposta direta vira grosseria- e isso me incomoda muito, porque as vezes é desnecessário, meu namorado disse que ele não liga não, mas eu pedi pra ele me falar quando eu fizer, eu acho que quero trabalhar isso e melhorar. Acho completamente cabível em certos momentos, tem hora que eu quero e preciso ser seca mesmo, e tem situações que vamos lá né, acabam com a paciência, cansam. Mas eu falo sobre os desnecessários, sobre as vezes ficar o dia inteiro nesse tom grosseiro e as vezes tem algo me incomodando mesmo, mas não acho que descontar em alguém que não tem nada a ver seja bom, porque primeiro a pessoa não tem nada a ver e segundo que vai virar automático eu descontar minhas frustações ao invés de resolver elas. minha ênfase nisso também, é um pouco em relação ao meu pai, porque ele é assim, sem contornos, sem enfeites, sem modular demais, ele fala, ele fala e pronto, ele tem um tom de voz, ele tem o jeito dele, ele é assim e não vai mudar- eu não quero ser assim, não no ponto de não ser quem sou, mas no ponto de saber perceber que existem situações e situações, que a forma que falamos afeta as pessoas e depois de dito não tem ctrl Z.
Com minha psicóloga, conversamos sobre identificar momentos de estresse, saber o que me deixa vulnerável e a partir disso prevenir, saber que certas coisas não vão poder ser feitas naquele momento, que certas palavras não vão ser ditas e estabelecer isso com meu namorado- e com isso, eu vou começar a automatizar esse processo de identificação e de saber o que fazer, com qualquer situação e com qualquer pessoa que seja- saber que meu copo está quase cheio, pra não jogar mais água e transbordar. Nesses momentos também, preciso entender que eu não posso esperar muito de mim, que ali eu não vou estar no meu máximo, eu vou estar no meu possível.
Nesse assunto também, encaixa o se moldar e se encaixar, é uma linha muito tênue entre preciso ser agradável, preciso ser educada, apresentável, delicada, certa e entre eu me sentir bem com o que eu faço e como faço, em eu estar confortável e bem.
Outra coisa também, são nossas diferenças e nossa forma de comunicação. Esse final de semana aconteceu dele ser grosso comigo e isso me deixou mal, eu me afastei e falei poucas palavras depois desse momento, dormimos assim, acordamos assim, deu 17 horas e nada- ele não me disse nada, eram contornos “está com dor?” “dormiu bem?” “deixa eu ficar perto de você”, isso pra mim é como se tivesse evitando falar sobre oq aconteceu ou até dependendo, como se nada tivesse acontecido. Mandei mensagem pra minha psicóloga e ela me disse que se algo me incomoda sou eu quem tenho que falar, porque a percepção do outro é diferente da minha- parece bem obvio e muito fácil, mas nosso emocional é meio maluco e dificulta algumas coisas, como isso, eu queria que ele falasse porque ele errou e ele me magoou- mas nem sempre a gente vê igual. Aqui entram nossas diferenças, essas das quais não se tratam de um gosto musical, mas da criação, da forma que vivemos- e isso não é exclusivo do relacionamento é a pessoa em tudo, em todas as suas relações e vivencias, o que afeta o que deixa vulnerável, o que gosta o que sente sobre as coisas- essas divergências e percepções diferentes diante situações não define a importância da pessoa sobre aquilo, mas como ela vê aquilo, quais os focos, quais os automatismos e quais respostas ela tem pras situações, sejam de conflitos ou não. Aqui é onde nós fazemos a escolha de ficar e entender isso- eu estou disponível e disposta a lidar com essas diferenças, com a dificuldades do outro, com o que ele não vê e eu vejo, e vice versa- é bem complexo e acho que essa é a chave pra uma relação saudável ou não.
Então, nesse momento eu preciso ceder e deixar essa crença de ‘ele que tem que vir até mim exatamente da forma que eu quero’ (e varias outras crenças também) e eu dizer e mostrar o que senti sobre o que aconteceu, e as vezes falar muito pouco já faz o outro tomar consciência e refletir aquilo- por exemplo, eu comecei falando ‘nos estamos afastados o dia inteiro, você não tem nada pra falar sobre?’ e dai ele já falou ‘foi por causa de ontem’- e mesmo que na sequencia ele tenha dito que não percebeu que foi grosso comigo e que não entendeu que era esse o meu incomodo, ele já ligou a minha fala a alguma situação próxima.
Eu fiquei remoendo algo que não precisava e ele ficou sem saber o que eu estava sentindo por não ser direto e objetivo. No final das contas a nossa conversa foi de que precisamos dizer na hora, ter um sinal, um código pra quando algo nesse sentido acontecer, porque é melhor falar na hora e interromper de alguma forma do que ficar recendo aquilo pra no momento certo falar sobre ou pra ficar guardando isso ate chegar no seu limite- porque o outro não me interpreta como eu mesma me interpreto então é preciso criarmos maneiras de fazer isso. Aqui também cabe entender que nenhuma pessoa que é X vai virar A- nós não podemos nos relacionar esperando uma mudança ou querendo mudar o outro- a pessoa X vai ser um X mais funcional pra dinâmica do relacionamento e isso parte das atitudes dela e do nosso contrato como um casal- isso é a pessoa precisa individualmente ter esse trabalho e entender que um relacionamento precisa desse processo, de que temo que ceder e aceitar para equilibrar as coisas e o casal em conjunto cria combinados para serem seguidos, formas que se encaixem em ambos.
Saber também que isso é pra melhorar a dinâmica, comunicação, funcionalidade, mas que é um caminho longo, é um caminho que dura o mesmo tempo que a própria relação- porque sempre vão ter novas situações, novas descobertas, nós somos mutantes e por tanto a relação também mutua de acordo com o momento que está sendo vivido.
a lua que minha cabeça tá
Ultimamente eu tenho estado em um eloquente nada, como se nada fosse muito importante, mas sem ser desinteressante por completo, eu me entrego e me saio, de tudo o que tem me corrido, meus olhos passam devagar por aquilo e minha cabeça quase não chega- perdida. Assim, eu me sinto a pessoa mais livre do mundo, como se o padrão bobo de tomar café com pão pela manhã, não pudesse me prender... mas me prende, eu tomo café e pão de queijo, ou biscoitos, ou somente queijo, essa rotina me faz não pensar em nenhuma possibilidade para a manhã, eu sou livre, mas como poderia comer uma berinjela empanada nesse horário? na hora do café, não, eu não posso. Assim eu me sinto livre, mas livre com regras, com limites, livre até algum momento em que eu me prendo, porque quem fala sobre a liberdade nunca sentiu. Eu me sinto solta, e as vezes, como agora, me sinto inteiramente idiota, eu não sei o que estou fazendo ao certo, eu faço o que quero, mas será que quero mesmo? Eu faço o que tenho que fazer mesmo sem querer, mas eu tenho mesmo? Porque é que nada me tem? Porque é que não me entrego a tudo e me deixo lá, eu queria ficar- eu queria que minha alma fosse várias, porque daí cada uma ficaria em um algo que me aconteceu, e assim, eu me teria toda em tudo. Mas eu me saio, me dou meia boca, meia dada, meio feito, meio quase lá.
02/06-03/06 de 2026



